Mate



Um nariz altivo a tocar o céu,
Olhos reservatório de além horizonte,
Orelhas talhadas a compasso,
Parecem ouvir o sol.

Baralhado por tal espectáculo
Inspecciono sinais, constelações na pele,
Na esperança vencida de abrandar
A minha deriva.

As palavras soltam-se
Dessa boca coquette
Qual pétalas de roseiral,
Não lhes sigo o sentido!
Importam-me antes a língua,
O recife marfim dos dentes
E a amplificação suave dos lábios.

 A custo desaponta uma ilusão frágil
Sobre emoção dominada,
Fortaleço-me por de trás da testa
Contra esse sortilégio enganoso
De coração em festa.

Mas prontamente sou derrotado
Por mais um sorriso velado
Que me devolve a confusão.






Pesadelo luminoso



Engoliu um raio de sol,
Ao estômago nem  sinal
À boca pareceu-lhe ar

Até que na noite,
Densa de negro,
Reparou em espanto
fosforescência
Que valsava  o corpo.

A perplexidade
Pôs em causa a identidade.
Confusão! Fúria!
Desejo de a borracha apagar
A luz irreverente.

Seguiu-se o medo gélido,
De uma existência
Sublinhada a florescente

Incapaz de vomitar
 Trago de luz
Deixou-o fermentar a alma…
Raios!Espirais de ouro!
Dor de nascimento.

 A ressaca  a meias com a lucidez,
Despertou a solução. 
Um pirilampo 
Sonhou ser homem


Estratégia Amorosa



Desce sobre mim um manto,
Qual camisa-de-forças,
Ou armadura protectora,
Face às incursões da tristeza.
Aos poucos o milagre do encantamento
Acena em despedida
E numa regressão estratégia
Volto ao estado de esporo.
Acabam-se as flores,
A vitalidade dos sonhos,
E o fresco espectáculo da paixão.
As oscilações do tempo,
Em desalento fundem-se
Num período de espera,
Monótono e devorador.
Recuso-me a pensar,
A fazer renda das emoções.
Por estratégia petrifico-me,
Sem perceber a minha anulação,
Nesta doente recusa de sentir.





............



Escuridão virgem
Um risco de luz
O medo fecundado.

Despedida



Estripou-me com ímpeto
O conforto da normalidade.
Amado à bofetada,
Acariciado a pontapé,
Deixei cair
Qualquer indício
De vindoura fé.


 Pária expulso
Nas entranhas da floresta,
Onde uivam 
 Fúnebres chacais,
 Soluço, saudoso
Alegrias ancestrais .

Só e angustiado,
Em meio tenebroso,
Sem  profecia
Acerca de futuro luminoso,
Abandono-me derrotado.

Frio

 
O frio tornou dura a alma,
  Fruto cristalizado pelo gelo,
 A qualquer momento pode estilhaçar.
Não se aconselham toques afáveis,
 Na ardência polar.
Invadidos os ossos e carne,
A flexibilidade 
Em espectáculo decadente.

Resta talvez,
 Vaga esperança,
Que o inverno seja o útero,
De uma primavera em dança.
  Que a aproximação do astro real,
Seja por fim, 
 Claro sinal,
Ao recolher da amargura
E ao adeus desta tortura






Um balão


Um balão tem fome de ar
Não é da seita do ventre liso
E das formas rectilíneas.
À falta de asas,
Come porções de infinito,
E voa com estômago cheio.
Os que entorpecidos,
Por uma estética alheia,
Negam tal apetite,
Ficam com aspecto mirrado
E palpável impotência.
A não ser que a golfadas de ar
Recuperem forma e inocência.
Dirão, um balão é frágil,
Uma iminente promessa de explosão,
 Suspenso de trôpega altivez,
Eu penso:
- O defeito assinalado
É concentrada ilusão
 Á vida está plasmado
Como gémeo irmão

O poeta



Tem trabalho de garimpeiro:
 Procura entre os grãos de areia
 Uma esquiva pepita de ouro.
 Poderão outros referir
 Tem a maldição do brilho,
  A febre da beleza.
 Não deixará de ter razão,
 Quem prosaicamente diagnostica:
 Miopia face ao pragmático;
 Dificuldades de locomoção, 
 Com especificidade ao real.
 Todos acertam,
 Ninguém está correcto.
 Explicação ou ponto de vista
 Tombaria na teia da definição,
  Por isso faço greve.
 Frente a mim, uma folha branca
 Com a seguinte inscrição: O poeta…

Ciclo



As espigas abrem-se,
Deixam que o sol lhes beije a pele,
Calorosa e firmemente.
Maturam
                             Com o silêncio do campo                               
E pródigas carícias de luz,
Em anseio
Pela colheita nupcial.

A exuberância sedutora,
Antecede autista e Inconsciente,
O estado pós coital
De canas amputadas,
De pureza roubada.
O fim da inocência,
Sob bárbara superfície,
Esconde a florida
Roda da vida.


Masoquismo


Uma náusea viscosa
Adere às palavras como o catarro,
Pintando cada anseio de expressão
Com muco acre e pus espesso.
Continuamente agrilhoada
A leveza rende-se à inaptidão,
Parindo entre uivos de desespero
Um nada opaco de dor.

Se para uns o exercício dos símbolos
Permite escapar a uma morte anunciada,
Ou oferece forma a qualquer memória amada,
A mim prodigaliza carícias de talhante
Nas asas da alma.

Anjo Canhoto


Palavras de enxofre,
Olhar sulfúrico
E Pele em fogo perene.

Cócegas ardentes ao ouvido,
Sem consciência,
A alma danada.

Meu Desejo
Adestrado à queda,
A um passo
O seio do precipício.

Demoníaco dom,
Tornar cada gesto,
Um Exercício natural
De profunda perdição.

Urinol do criador




Por necessidade fisiológica
Derramou em jacto, sem preocupação
As estrelas sobre negro lago de seda.
Ironia ou destino, o modo canídeo
De a qualquer acto
Permitir imediata expressão
Criou, a travestidos seres aquáticos
O pano de fundo para o medo
E a base da ilusão.

Seduções de O.



A língua de neblina, já percorre o corpo
Calças, camisa e casaco, apagados.
Linhas esbatidas, nuvens
Que deixam de estar em cima
E passam a ser em frente.
O cinto do horizonte esfuma-se,
Deixando o mundo nu,
Atrás de vaporosas cortinas.
Aqui e além, pirilampos de fogo,
Luzes de âmbar em janelas despertas.
Casas ondulantes enxameiam
Tela verde a onírica aguarela.
Árvores desprovidas de pudor
Arremessam sonora e lascivamente
A roupa interior.
Solo em anseio de ser tocado
Por livres passos de dança.
Março pode beijar com sabor virginal,
Mas o maduro Outubro sabe manear a anca.