Guerra com quartel




Tinha a cabeça como um grande receptáculo de nuvens,
Quando transbordava ficava com olhos nublados.
O crânio a pulso tentava
Conter aquela imensidão gasosa,
 Olhos, ouvidos e nariz
Insurgiam-se de forma teimosa,
Contra o despotismo do exercício.
Assim, uma Guerra permanente
Invadia a existência do coitado.
Dois céus a querer união
E uma prisão de carne e osso
A impedir a manobra.

Numa hora solitária seduziu-se
Pelo beijo de uma bala
Dizendo-se desde então
Que devido a polvorosa decisão
As suas ideias ganharam asas.
Quando uma nuvem passa agora
Ninguém consegue discernir
Qual dos dois céus a elabora.

Janelas



Interessam-me as janelas!
Pela sua natureza ocular
Hipnotizantes e convidativas
Em flirt com a imaginação.

Lançam convites…
Como olhos insinuantes
Oferecem pontos de fuga
 Em direcção a uma intimidade velada.
Não importa se estão
Fechadas
E Chumbadas pelo sono
Ou abertas
 Em subtil prostituição,
Alugam-se
Por um golpe de fantasia.

Reconheço – lhes os caprichos:
Inebriadas e loucamente adolescentes
 Com cortinas esvoaçantes;
Introspectivas e misteriosas
À custa de pesado veludo corrido.

Interessam-me as janelas
Pelo erotismo requintado
Que as portas em rude pornografia
Não conseguem alcançar.

Interessam-me as janelas
Como me interessam os teus olhos…



Mudança Renegada




Bateu-me à porta um impulso,
Ainda com a corrente,
Através da fronteira entreaberta,
 As suas palavras vibraram
Em secretas cordas, que pensei perdidas.
Embriagado por tal carícia
 Apressei-me no convite de entrada.                                                           
Mas uma voz preguiçosa
Do fundo da cozinha
 Agarrou-me o braço,
Com avisos a morder,
 Foi-me desfiando
As feições transgressoras
Do ilustre desconhecido
E a frequência
 Com que tal contexto propicia o crime.
Delicado e inconsciente, acedi.
Sem mais demoras ou explicações
Com modos de mal-educado
Preguei, por dentro,
 A tampa do caixão.

Agora em serões silenciosos,
Encosto o ouvido
À linha da minha exclusão
Na esperança
Que cedendo à insistência
Ou por zelo profissional
Bata novamente.
Persisto!
 Em semelhante procedimento,
Que vicioso me ocupa e desgasta.

Uma trocista voz desdentada
Como mão bem fechada,
 No centro do rosto,
Vai vociferando
 Contra o meu comportamento imbecil,
Entre gritos e desprezo,
 Sorri-lhe todo o corpo
Com a imagem do casulo morto
Que em espessas camadas de terra
 Sem saber urdi.

Fantasma dentado



O mapa de cicatrizes emocionais
Escapa à ordem da bússola.   
Memória e presente…
Partes em violenta cópula
De um pólo norte oscilante.

                                                                                                             
Pela vaporosa materialidade
As pegadas não assinam o caminho.
Ariadne, enleada e ostracizada
Na sua existência muda de espectro.


Neste trilho labiríntico existe
Em perenidade feroz
Um fantasma bruto e mordaz,
Uma imagem áspera
 Que esfola a pele da alma.       


 E esta maldita recordação,
Que por enganosa inépcia
Um dia apelidei de mansa.

Diva em Plastik



Mais plástica e consumível
Que um saco de hipermercado.
 Todos os adereços
Parecem gritar:
-Escrava de mercado.
Batom…
 Cor de cabelo garrida
Quais néons a anunciar,
Superfície colorida
Em alma corrompida.
                                                         

Olhar inexpressivo de boneca
Eternamente focado,
 Num horizonte Moldado
Como um eco de espelho.


A conversa afectada,
Pomposa,
Sem expressão de dúvida
Prodigaliza máximas
De qualidade duvidosa.


Uma foto!
Como prova de identidade,
Manifesto de exotismo
Sobre ossos
De irritante normalidade.


Por favor muda o sabor,
Pois até uma goma
 Deve ter paladar variado.
E eu já não aguento mais
Este pesadelo açucarado.









Memória no areal



Destroço de navio
Musgoso e abandonado
 À Tua rigidez original
Foi sugada a vitalidade.
Face à moleza actual
As antigas glórias,
Irreversivelmente
 Distantes memórias.
A tripulação de branco alvar
 E azul-marinho
Deu sem se aperceber lugar
A Gordos vermes em desalinho.
As antigas canções do mar
Afinadas em gin
Foram Substituídas à dentada
 Por um pavoroso festim.

E tu, inocente ou inconsciente
Persistes em planos debilitados,
Tentas esquecer inutilmente
O casco e leme desarticulados.
Antes beijado
Pelas ondas e espuma
Agora conquistado
Pela areia e a bruma.

Sonhos



Os sonhos abusam!
Do seu estatuto encantado,
Em vez de bem-estar
E esperança futura,
Destroem a mente
Com plácida tortura.

Falam de sonhar acordado
Como panaceia para o mal de existir,
Mas parecem tais devaneios
Uma forma subtil
De a real existência proibir.

O castelo de nuvens,
Merece sem margem para piedade,
Acto de terrorismo,
Pois lentamente
Condena a vida real
A um monótono derrotismo.

Acção!
Para a frente,
Com ímpeto e fúria.
Chega de passividade
E onírica maldição.

Flor nocturna





Foi um sonho palpitante…

Roupa púrpura esculpida à medida

Caule sinuoso para pescoço e rosto.

Sorriso de espuma,

Nariz de traço milagroso,

Lábios de uva, olhos avelã.

Partiu o solo das minhas certezas

E fez-me com anseio suplicar

O adiamento da manhã.

Tenho ainda os restos da noite

A recordação dos meus saltos

As luzes em doce fosforescência

O anseio de ser notado

A suspeita e a certeza de ser amado.

Mas também a infelicidade

De acordar em sobressalto

E de ser Roubado a essa existência.

Sem aviso ou agrado

Novamente devolvido à minha latência.

O 6º




1.
Com aos olhos semicerrados
Identifico uma miríade de pontes luminosas
Do sol até à boca.

2.
Depois de beijar o desejo de ilimitado
Fiquei com o céu-da-boca cauterizado
A língua perdeu o dom gustativo
Por excesso de estimulação.


3.
Rastejei pela memória
Com um foco de perfume
As imagens em rápida sucessão
Sob a lente do sentido ancestral.


4.
Pressinto as pessoas
Através de emanações sonoras
As formas musicais revelam
 Impressões digitais.


5.
Um toque etéreo
Tornou-me numa estação arqueológica,
O oculto abraçou a superfície
Ensinando-me a circularidade do tempo.        


6.
Responde o demónio:
 - Não existem compartimentos,
O que foi dividido de forma estanque
Sonha febrilmente com a dissolução.



Nocturnus


Brilhas como as estrelas
No seu fausto nocturno
Alma pejada de encanto.

Lua



Eu vivo do outro lado da mente,
por trás do sorriso de máscara
e do brilho solar do rosto.
Para me encontrares 
Ultrapassa o portão alado do sonho.

Eu sou a divindade de prata,
Mãe da loucura que uiva,
Corpo alado,
Frio, misterioso e maldito.
A meu estranho reino da noite
Pertence o choro silencioso,
As chagas espectrais
Tudo o que é indesejado
 e Só...





Tenda de campanha


Numa branca tenda de campanha
Reúnem-se...
Planeiam revoluções,
Conquistas de um fôlego,
Levarão danças e acrobacias
Para a nova arca.

Violência Feminina



A Chuva cospe à janela
Atenta o meu conforto,
 Ponteia e esbraceja
Quer que eu de por ela.
Condescendo um olhar,
Reparo na violência do trato
Árvores, casas, terra e gente
De joelhos…Domados.


Reconheço o apetite voraz,
Que arrota ossos
E almas perdidas,
Mas não me entrego sem resistência
Ou planeio um pedido de clemência.
Protegido, antes devolvo uma resposta
Escondida por uma capa de tanto me faz,
Pois o que eu quero com firmeza
É aumentar-lhe a revolta
Perante minha indiferença tenaz.